Advocacia e o perfil interdisciplinar do conhecimento profissional - Parte I


Pode-se dizer que o objeto de trabalho da advocacia corporativa e empresarial deve ser o aclaramento aos agentes de mercado quanto aos limites legislativos e burocráticos, para que transações sejam realizadas com a geração de valor sustentável à empresa e aos seus clientes. É, assim, o advogado agente essencial para a melhor alocação de recursos, na linha da teoria da “Economia de Custos de Transação” apresentada por Ronald Coase.


Nesse sentido, tradicionalmente os agentes negociais livres possuem criatividade e velocidade para gerar novas situações de trocas voluntárias, que nem sempre o Estado de Direito pode acompanhar (ou nem sempre são éticas ou jurídicas, mas esse é um outro debate).


Essa questão se agudiza nos tempos atuais, pois a tecnologia exponencial do século 21 trouxe pontes de comunicação antes inimagináveis, que influenciaram sobremaneira a dinâmica do mundo dos negócios, levando empresas a precisarem de ainda mais agilidade e inovação constante para sobreviver num mundo em que a reserva de mercado já praticamente (praticamente, pois ainda há a reserva artificial criada pelos oligopólios e monopólios instituídos pelo Estado em áreas de interesse) não existe mais.


Hoje, qualquer negócio, por mais potente que seja, está em vias de disrupção, gerando a necessidade de se enxergar sempre mais do que o seu produto, mas também o que o cerca, as suas oportunidades e ameaças.


Nessa dinâmica, a advocacia contemporânea também vem passando por ajustes que trouxeram ao profissional do direito a necessidade de ter não só o aprofundamento vertical do seu conhecimento, mas uma visão holística e gradiente para contemplar ramos diversos do direito e dar as soluções que pedem a complexidade das atividades do cliente.


Assim, o profissional altamente especializado em determinada disciplina vem entendendo a necessidade de horizontalizar a sua visão jurídica para outras áreas do direito e, também, para outras disciplinas do conhecimento, especialmente no que diz respeito à gestão de negócios, economia, contabilidade e produção.


No que diz respeito à ampliação do conhecimento no Direito, os profissionais têm procurado incrementar os seus conhecimentos individuais, mas também buscado sociedades e parcerias que permitam oferecer serviços mais qualificadamente abrangentes.


Nessa toada, a advocacia exclusivamente especializada cada vez mais se posiciona como grande referência para a solução de questões profundas e pontuais, enquanto prestadores de serviço com capacidade abrangente passam a atuar mais próximos do cotidiano das empresas e especialmente em questões que pela sua própria complexidade impendem a interdisciplinariedade.


E qual o problema? Nenhum. Essa observação é mero sinal de que apesar do pessimismo constante com o futuro da nossa profissão, em excelente medida a advocacia resolveu acompanhar o desenvolvimento do seu “objeto de estudo” e, ao se adaptar ao tempo do cliente, também se amolda melhor à realidade.


Cada estratégia de atuação poderá desdobrar na formação de profissionais e escritórios com um perfil melhor delineado, servindo melhor a advocacia ao mercado, especialmente em tempos de desjudicialização dos conflitos.


A advocacia enquanto profissão tradicional e com limites de organização arcaicamente estabelecidos em seu establishment, vem se debatendo para se adaptar ao presente e futuro para não ser esquecida como uma atividade do passado.

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