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O preço do silêncio dos demitidos do Nubank

Fonte: Folha de São Paulo


Para uma empresa tão dependente de sua imagem, ter segredos parece um problema de difícil solução

 

Nascido durante a onda das fintechs (startups focadas em tecnologia aplicadas no mundo financeiro), o Nubank abriu seu capital na Bolsa, em dezembro de 2021, valendo mais que o Itaú. Hoje, vale menos que o Santander Brasil.


A história puniu rápido demais o voo de ícaro das fintechs. Primeiro com a derrocada das techs e, agora, com o mergulho do setor financeiro na insegurança global.


O ponto que vale a pena explorar é o quanto o negócio do banco —que apelidou a si mesmo de "roxinho"— está efetivamente no setor de finanças e tecnologia e o quanto a empresa depende de uma imagem jovem, descolada e "do bem".


O questionamento acontece em meio a uma onda ESG (boa governança social, ambiental e corporativa) que tem sido usada para criar imagens atrativas em vez de colocar boas práticas no dia a dia das empresas. Justamente por estarmos na onda, vejo como uma preocupação importante para definir seus investimentos.


Em documento entregue à Comissão de Valores Mobiliários, o primeiro fator de risco listado pelo Nubank para o valor de suas ações é assim: "Nosso negócio depende de uma marca bem conceituada e amplamente conhecida, e qualquer falha em manter, proteger e aprimorar nossa marca e imagem, inclusive por meio de estratégias de marketing, poderia prejudicar nossos negócios, nossa condição financeira e nossos resultados operacionais".

Isso não é algo comum para instituições financeiras. O primeiro risco citado pelo Itaú Unibanco, por exemplo, é o risco de crédito. Para o Bradesco, o medo é de epidemias e desastres naturais, como a Covid-19. O Santander Brasil, por sua vez, tem como primeiro possível problema listado uma desaceleração econômica prolongada.


Justamente por essa preocupação com imagem não ser natural neste setor do mercado, é que ela se torna um fator primordial para a observação do investidor atento. E um ponto que chamou a atenção na última semana foi a informação de que o Nubank passou a oferecer benefícios para funcionários demitidos caso eles se comprometam a não difamar o banco.


O contrato oferecido qualifica como difamar fazer comentários "com qualquer pessoa ou entidade" de forma que prejudique ou possa prejudicar "a honra, boa fama ou reputação" do roxinho. No limite, até aquele desabafo no almoço de domingo após a demissão fica proibido. Em troca, o ex-funcionário silenciado recebe um salário extra e plano de saúde por mais um trimestre.


Realmente, nos últimos meses pipocaram postagens em redes sociais (e notícias sobre) de pessoas desligadas falando mal de seus ex-patrões, principalmente após ondas de demissões em massa no setor financeiro. "Cartas abertas" ao Banco C6; à XP; e críticas ao próprio Nubank circularam no noticiário. Não se viu, no entanto, impacto real delas no valor das ações das empresas.


Assim, não fica nem um pouco claro o cálculo feito pelo Nubank para valer a pena oferecer salários e planos de saúde em troca do silêncio. Que tipo de informação eles querem segurar que custaria tão caro se fosse replicada por ex-empregados "a qualquer pessoa" ou em suas redes sociais?


[...]


A expansão muito extensiva do conceito jurídico de difamação, aliás, abre outro flanco para discussão jurídica da cláusula e possível anulação, conta o também advogado Bruno Guerra de Azevedo, sócio do SGMP Advogados.


Em resumo, para uma empresa tão dependente da sua imagem, ter segredos que custem tão caro parece um problema de difícil solução.


Hoje, seus papéis na Bolsa brasileira (BDRs NUBR33) são negociados na casa dos R$ 4,05, enquanto suas ações na Bolsa de Nova York são negociadas por cerca de US$ 4,60.


Enquanto o BTG Pactual não recomenda a compra nem a venda das BDRs do Nubank, apontando preço-alvo de R$ 4,40, o Citi recomenda a compra dos papéis do roxinho em Nova York, com preço-alvo de US$ 7.


Para ler a matéria na íntegra, clique aqui.

 

Bruno Guerra de Azevedo é sócio do SGMP+ Advogados.

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